O que muda quando você para de visitar um lugar e começa a viver nele
Por Tiago
Tem uma diferença grande entre chegar a um lugar para passar alguns dias e chegar sabendo que, por um tempo, você também vai fazer parte da rotina dali.
Num hotel, normalmente a lógica é simples: você chega, deixa as malas e pede alguma informação a alguém da recepção. Pergunta onde comer, qual praia vale a pena conhecer, talvez conversa um pouco sobre a cidade. Num Airbnb, essa troca pode acontecer com o anfitrião que recebe você.
Depois, sai para fazer o que veio fazer.
Praia, restaurante, passeio, foto.
No fim do dia, volta.
Foi assim em muitas viagens nossas. Só que desta vez, em Matinhos, entramos pela outra porta.
Estamos vivendo nossa primeira experiência de voluntariado pela Worldpackers: ajudamos nas atividades do lugar em troca de hospedagem e algumas refeições.
Em vez de conversar alguns minutos com quem nos recebe e sair para passear, também dividimos tarefas, sentamos para comer juntos e continuamos o assunto depois.
E viver a experiência desse lado está sendo muito melhor do que eu imaginava.

Quando você deixa de ser só hóspede
A pessoa que indicou um restaurante na recepção talvez saiba cozinhar alguma coisa que você nunca experimentou, esteja fazendo faculdade, queira conhecer outro país ou esteja passando por um dia péssimo em que uma conversa de cinco minutos faça alguma diferença.
Mas, entre pegar a informação e sair para o passeio, muitas vezes você não chega a descobrir nada disso.
Aqui temos mais tempo para nos conhecer. Estamos participando da rotina, não apenas passando por ela.
Antes de chegar, já sabíamos que existiriam horários, responsabilidades e coisas para fazer. Ninguém nos pegou de surpresa dizendo:
“Parabéns pela viagem. Aqui está uma vassoura.”
A gente se candidatou para aquilo.
E parece um detalhe pequeno, mas muda completamente a maneira como eu encaro as atividades.
Você faz porque escolheu estar ali
Quando estou falando com um hóspede, quero ser simpático. Quero ajudar, quero que a pessoa seja bem recebida.
Eu também escolhi estar naquela experiência.
Em outras viagens, chegava esperando encontrar tudo pronto. Aqui, também participo do que precisa acontecer para os outros aproveitarem.
Claro que existem tarefas. Tem limpeza, cozinha, organização e horários. Nem tudo vira uma linda reflexão sobre viagens enquanto alguém segura uma esponja.
Mas o cenário é outro.
Estamos participando temporariamente daquela rotina porque decidimos viver essa troca. E, pelo menos para mim, isso muda bastante a disposição de tentar fazer bem feito o que pedem.
Até agora, está muito tranquilo. Não estou sentindo como uma rotina de emprego CLT. O ritmo que encontramos aqui na cozinha é bem mais tranquilo do que o de uma cozinha de restaurante.
E é no meio dessas atividades que acontece boa parte do que estou gostando de viver.
Em uma semana você descobre coisas que talvez não descobrisse em um ano
Você pode trabalhar um ano ao lado de alguém e ainda saber muito pouco sobre essa pessoa. Onde nasceu, o que já viveu, por que está ali, o que quer fazer depois.
Aqui, às vezes uma semana é suficiente para conhecer um bom pedaço dessa história.
Talvez porque cozinhar, limpar, sentar para comer e dividir o mesmo espaço crie conversas que dificilmente aconteceriam num elevador de hotel.
Você começa falando sobre como preparar alguma coisa. Daqui a pouco está ouvindo como aquela pessoa chegou ali.
Uma conversa começa durante uma tarefa e continua na refeição.
Ou vira uma música que não sai mais da sua cabeça.
Um dos voluntários cantava aquele trecho do Roberto Carlos: “Eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também”.
E de novo.
“Eu te darei o céu, meu bem, e o meu amor também”.
Sempre a mesma parte, num loop infinito. O céu e o amor estavam garantidos. O restante da música eu já não sei.
Acabou virando uma piada interna. Eu rio só de lembrar. Curti afu a música que salvei na minha playlist — depois de ela já ter se instalado na minha cabeça sem pedir autorização.
Essa convivência foi uma das partes de que mais gostei até agora. Não é apenas conhecer Matinhos. É conhecer as pessoas que, por alguns dias, fazem parte de Matinhos.
E aí entra a comida
Essa parte merece um capítulo próprio.
Talvez vários.
Já experimentamos comidas que provavelmente não experimentaríamos ficando em hotel ou Airbnb. Não porque não existam restaurantes bons por aqui, mas porque a experiência é completamente diferente.
Em uma das refeições, tivemos um menu vegetariano com oito preparações diferentes.
Oito.
E estavam incríveis.

Também comemos pratos preparados por argentinos que cozinham muito bem, experimentamos ingredientes que raramente usamos e vimos maneiras de preparar as coisas que provavelmente nunca procuraríamos por conta própria.
E aí está a diferença.
Não é só comer. É estar na cozinha, perguntar o que é aquilo, descobrir como fazem. Conversar enquanto alguém prepara, ouvir histórias, dar opinião e aprender alguma coisa sem perceber que estava aprendendo.
Num restaurante eu poderia pagar pelo prato.
Aqui conheci também um pouco de quem fez o prato.

Ainda estou aguardando minha função de degustador de drinks
Também existem tarefas que aparentemente ainda não descobriram que combinam muito com minhas habilidades.
Por exemplo: experimentar drinks.
Até agora ninguém me escalou.
Infelizmente, durante o horário de trabalho é proibido beber. E com muita razão.
Mas continuo disponível caso precisem desse tipo de voluntário fora do expediente.
Nunca se sabe.
O bom senso também faz parte da viagem
Apesar de tudo isso, também não quero transformar voluntariado em propaganda de comercial de margarina. Nem virar o Hulk, abraçando os outros de cara feia.
O que estamos vivendo tem sido muito bom. Mas pessoas são diferentes, e a nossa experiência não significa que toda convivência vai funcionar do mesmo jeito.
Existem voluntários que dão dor de cabeça aos anfitriões. E anfitriões que dão dor de cabeça aos voluntários.
Não existe plataforma capaz de tornar todas as pessoas compatíveis só porque elas preencheram um perfil e aceitaram algumas regras.
Por isso eu volto sempre a uma coisa muito simples:
O que eu não quero para mim, não faço para os outros.
Se combinei um horário, tento cumprir. Se usei alguma coisa, organizo. Se alguém está trabalhando, respeito. Se existe uma regra da casa, procuro entender antes de decidir que minha opinião é mais importante.
O combinado vale para os dois lados.
Bom senso ainda é uma tecnologia bastante eficiente.
Talvez essa seja a diferença entre passar e viver
Ainda somos visitantes. Daqui a algum tempo vamos arrumar as malas e seguir viagem.
Não viramos moradores de Matinhos por passar um tempo aqui. Mas também já não estamos vivendo o lugar exatamente como viveríamos num hotel.
Existe um meio do caminho interessante.
Por alguns dias, temos tarefas, horários e pessoas esperando por nós. Uma cozinha onde já sabemos encontrar algumas coisas. Conversas que continuam no dia seguinte. Comidas que não estavam no roteiro.
E pequenas responsabilidades que fazem aquele lugar parecer um pouco menos cenário e um pouco mais vida real.
Talvez seja essa a parte que eu não entendia antes de começar.
Viajar não precisa ser apenas chegar, olhar e ir embora.
Às vezes você pode entrar pela outra porta.
E descobrir que, desse lado, a viagem tem muito mais gente dentro.
Tchê… lá ele.
😂

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