Aos 40, eu sabia trabalhar. Só não sabia ser freelancer.
Eu e a Angelys já tínhamos experiência profissional. Sabíamos atender pessoas, vender, pesquisar, resolver problemas e trabalhar sob pressão. Mesmo assim, quando decidimos tentar o freelancer, parecia que tínhamos entrado em outro planeta.
No começo eu achei tudo confuso.
Projeto, proposta, perfil, portfólio, preço, avaliação, prazo.
E fiz o que eu fazia sempre que não sabia alguma coisa:
perguntei para o ChatGPT.
Perguntava quase tudo.
Como responder.
Quanto cobrar.
Como montar proposta.
Se aquele projeto fazia sentido.
Hoje eu olho para algumas das nossas primeiras mensagens e dou risada.
Eram corretas.
Educadas.
Profissionais.
E completamente sem personalidade.
A IA sabia escrever.
O problema é que ela ainda não sabia quem éramos nós.
Demorei um pouco para entender essa diferença.
O problema não era começar do zero
Eu não ficava incomodado por não termos avaliações.
Aquilo fazia parte.
Todo mundo que tem cinquenta avaliações um dia teve zero.
Não tinha muito o que reclamar.
Precisávamos começar.
Por isso, no início, eu pensava mais em conseguir os primeiros trabalhos e avaliações do que em cobrar o máximo possível.
O verdadeiro problema era outro.
Enquanto ainda trabalhávamos presencialmente, eu e a Angelys tentávamos fazer tudo à noite.
Depois de um dia inteiro de trabalho.
Cabeça cheia.
Cansaço.
Abríamos projetos, pesquisávamos, tentávamos entender aquele mercado novo e mandar propostas.
E eu comecei a pensar:
isso talvez não dê certo.
Hoje acho engraçado.
A gente estava tentando avaliar uma nova forma de trabalhar usando as sobras de energia da forma antiga.
Quando decidimos focar de verdade, mudou tudo.
Se ninguém nos conhecia, precisávamos mostrar alguma coisa
Nós não tínhamos histórico como freelancers.
Então pensei:
como um cliente vai confiar na gente?
Comecei a montar portfólios.
Depois criei um site.
Não porque alguém tinha me ensinado uma estratégia secreta.
Foi puro instinto.
Se eu estivesse contratando alguém pela internet, gostaria de clicar e encontrar alguma coisa.
Trabalhos.
Informações.
Organização.
Alguma prova de que aquelas duas pessoas realmente existiam e sabiam fazer alguma coisa.
Queríamos chegar numa proposta com um pouco mais de autoridade.
Mesmo sem avaliações.
Mesmo começando.
E nessa fase aconteceu algo importante.
A Angelys tinha acabado de ser campeã
Em 2025, a Angelys foi a corretora campeã da imobiliária.
Vendeu mais do que todos os outros corretores e corretoras naquele ano.
Recebeu um troféu enorme pela conquista.
Isso não é pouca coisa.
Vender imóveis já exige muita coisa: prospecção, disciplina, atendimento, negociação, acompanhamento, paciência e uma capacidade enorme de continuar trabalhando mesmo depois de ouvir vários “nãos”.
Ser a profissional que mais vendeu dentro de uma equipe inteira significava que ela tinha feito isso melhor do que todos naquele ano.
Eu tinha muito orgulho dela.
Ainda tenho.
E talvez esse seja um dos melhores exemplos para explicar nossa decisão.
Nós não estávamos tentando algo novo porque a vida profissional tinha fracassado.
A Angelys tinha acabado de ser campeã.
Só que apareceu outra coisa que nos deixou muito mais animados:
a possibilidade de conhecer o mundo.
Quando esse pensamento entrou na nossa cabeça, ficou difícil ignorar.
É diferente ser iniciante e não saber trabalhar
Nós éramos iniciantes como freelancers.
Mas não éramos iniciantes como profissionais.
Isso fez muita diferença.
Eu já tinha aprendido muito com vendas.
Você precisa ser educado.
Atento.
Proativo.
Curioso.
Gentil.
Bem informado.
Precisa ouvir.
Fazer perguntas.
Perceber quando alguma coisa não está certa.
Pesquisar antes de falar besteira.
Saber receber um “não” sem transformar aquilo numa tragédia pessoal.
E principalmente:
resolver problema.
A Angelys tinha outras qualidades muito fortes.
Comunicação.
Firmeza.
Organização.
Atenção aos detalhes.
Ela consegue ficar muito mais tempo concentrada em determinadas coisas minuciosas do que eu.
Eu sou mais:
“me dá aqui que eu vou descobrir onde está o problema.”
Ela é mais:
“calma, deixa eu conferir tudo primeiro.”
No fim, funciona bem.
E o primeiro contrato veio numa coisa que nunca tínhamos feito
Quando finalmente começamos a levar aquilo a sério, conseguimos nosso primeiro contrato em poucos dias.
Era para trabalhar com editais.
Nunca tínhamos trabalhado com isso.
Excelente começo.
Primeiro trabalho como freelancers e já escolhemos uma coisa que nenhum dos dois sabia fazer.
Mas tinha uma diferença.
Nós não sabíamos fazer ainda.
Começamos a pesquisar.
Ler.
Perguntar.
Entender.
Fazer.
Conferir.
E conferir de novo.
A Angelys se saiu muito bem nessa parte.
E conseguimos entregar.
Depois veio o pagamento.
R$ 219
Nosso primeiro pagamento como freelancers foi de R$ 219.
Não era dinheiro para resolver nossa vida.
Mas provou que o plano podia funcionar.
Essa diferença, para mim, foi enorme.
Antes existia uma pergunta:
“Dá para ganhar dinheiro dessa maneira?”
Depois daquele pagamento, a pergunta mudou:
“Como fazemos isso crescer?”
Parece simples.
Mas foi exatamente a mesma sensação que eu tive quando vendi meu primeiro imóvel anos antes.
Até você fazer, existe dúvida.
Depois que acontece uma vez, algo muda na cabeça.
Agora não era mais:
“Tem gente que consegue.”
Era:
“Nós conseguimos.”
A IA também começou a mudar de função
Uma das coisas que rapidamente percebemos foi que não dava para continuar enviando mensagens que pareciam ter saído do mesmo molde.
No começo eu usava IA praticamente para dizer o que eu deveria falar.
Hoje prefiro usar de outra maneira.
Eu dou contexto.
Explico nossa experiência.
Como pensamos.
O que sabemos.
O que não sabemos.
O que realmente achamos daquele projeto.
A diferença é enorme.
Porque IA sem contexto produz texto.
Com contexto, começa a ajudar você a expressar melhor uma ideia que já é sua.
Ainda uso muito.
Provavelmente uso mais hoje do que usava naquela época.
Só parei de esperar que ela descobrisse sozinha quem eu sou.
Às vezes penso: por que não descobri isso antes?
Tem momentos em que esse pensamento aparece.
Por que eu não fiquei mais atento à internet?
Por que não pesquisei antes maneiras diferentes de ganhar dinheiro?
Por que demorei tanto para perceber que existiam pessoas trabalhando enquanto viajavam?
É um pequeno arrependimento.
Mas passa rápido.
Não gosto muito de viver olhando para trás.
O que aconteceu me trouxe até aqui.
Agora quero descobrir o que existe na frente.
E, sinceramente, meu maior problema hoje nem é aprender a ser freelancer.
É controlar a ansiedade.
Eu quero conhecer o mundo.
Quero começar logo.
Mas vontade não paga passagem.
Então trabalhamos.
Talvez o mais importante seja saber se adaptar
Não sei se freelancer será “a profissão do futuro”.
Provavelmente não existe uma profissão única do futuro.
Mas acredito muito que saber transformar uma habilidade em algo que possa ser entregue pela internet vai valer cada vez mais.
Saber pesquisar.
Aprender rápido.
Usar tecnologia.
Usar IA.
Conversar com pessoas.
Resolver problemas.
Se adaptar.
Nós ainda estamos aprendendo tudo isso.
Ainda erramos.
Ainda existem propostas ignoradas.
Cliente que desaparece.
Projeto que parecia ótimo e não era.
Preço que depois percebemos que poderia ter sido diferente.
Faz parte.
Mas hoje existe uma diferença grande em relação àqueles primeiros dias.
Temos mais identidade.
Mais calma.
E principalmente mais confiança de que aquilo pode crescer.
Os primeiros R$ 219 não foram o objetivo
Foram a confirmação.
Não resolveram nossa vida.
Não pagaram uma viagem pelo mundo.
Não transformaram a gente em “nômades digitais”.
Mas fizeram uma coisa importante:
provaram que o plano podia funcionar.
Agora o trabalho é fazer esse número crescer.
E continuar.