Aos 17, ela saiu de casa. O nome dela é Angelys.

Por Tiago

Quando conheci a Angelys, ela era a colega da imobiliária que morava no caminho da minha casa. Eu dava carona para ela.

Um dia, convidei ela para comer alguma coisa. Num posto de gasolina, perguntei se queria beber algo. Ela disse que sim.

Naquela noite, ficamos pela primeira vez.

Também amassei o carro pela primeira vez. Encostei numa parede. Foi pouco, nada sério, mas aconteceu tudo na mesma noite. 🥲

Depois começamos a ficar mais vezes. Teve amizade. E a gente foi colorindo igual aquarela. 😅

O relacionamento foi tomando forma aos poucos. E uma vaga de garagem acabou participando mais do que eu esperava.

Eu tinha uma Oroch que não cabia no pátio de casa. Precisava deixar no vizinho e não me sentia confortável. Não gostava de dar trabalho.

A Angelys tinha direito a uma vaga no apartamento dela. Queria que eu levasse mais coisas para dormir lá e saíssemos juntos para o trabalho.

Eu avisei: se começasse a levar minhas coisas, logo estaria morando ali.

Foi exatamente o que aconteceu.

Com a convivência, fui conhecendo melhor a Angelys. E descobrindo quanto já tinha acontecido na vida dela antes de entrar naquela imobiliária.

Quando ela me contou que tinha saído da Venezuela aos 17 anos, lembrei na hora do começo de Natasha, do Capital Inicial. Coloquei a música para tocar.

Ela riu.

Aos 17, ela estava saindo do país sozinha. Eu mal pegava ônibus sozinho. Minha cabeça estava mais ocupada com o próximo trago no fim de semana.

Meus pais sempre fizeram tudo o que podiam por mim. Não tenho do que reclamar. Mas, ouvindo a Angelys, penso que talvez eu tivesse sido mais esperto quando jovem se precisasse ter me virado um pouco mais.

Ela precisava encontrar trabalho, aprender outro idioma e fazer a vida acontecer num lugar novo. Eu ainda tinha muito mais espaço para não saber o que queria.

Ouvir essa história foi como acompanhar um filme biográfico. Só que eu conhecia a protagonista. Dava carona para ela, trabalhava ao lado dela e dormia com ela. 😂

E, mesmo com toda essa intimidade, eu ainda estava conhecendo a parte da vida dela em que eu não aparecia.

Duas mochilas e um idioma que ainda não dominava

Angelys cresceu em Santa Elena de Uairén, perto da fronteira com o Brasil. Estudava pela manhã, saía de casa por volta das seis e meia e caminhava entre 35 e 40 minutos para chegar à escola.

Ainda faltava cerca de um ano para terminar os estudos quando decidiu sair do país em busca de outra vida.

Quando conversamos sobre essa decisão, ela me contou:

“Eu não queria procurar um marido, ficar grávida e morar numa casa como minha mãe falava. Eu queria um futuro diferente ou pelo menos tentar ser uma pessoa diferente com um futuro.”

Não contou para todo mundo de imediato. Inicialmente, só uma amiga e os avós sabiam. A mãe ficou sabendo pouco antes da partida.

Era a primeira vez que saía do país, viajava sozinha e entrava num avião. Levava duas mochilas e ia para um lugar onde não dominava o idioma.

“Só com a fé e a esperança que Deus iria me ajudar.”

Eu já acho bastante coisa organizar uma viagem com alguém ao lado. Tento imaginar fazer isso aos 17, sozinho, sem dominar a língua e precisando encontrar trabalho quando chegar.

Cinco currículos, chuva e dois casacos

No Rio Grande do Sul, foi morar em Dois Irmãos. Queria trabalhar numa fábrica de chocolates e deixou currículo umas cinco vezes no mesmo lugar.

No dia da entrevista, caiu uma chuva forte. Chegou encharcada.

A responsável perguntou por que tinha ido naquele estado. Ela respondeu que tinha uma entrevista.

Contou de onde vinha, explicou a insistência e recebeu uma oportunidade. Também recebeu comida, um guarda-chuva e dois casacos. Não tinha chegado preparada para o frio gaúcho.

Essa parte me toca. Além de dar uma oportunidade, a mulher percebeu o que ela precisava naquele momento.

Na fábrica, embalava chocolates e aprendia palavras em português com as colegas. Uma senhora que parecia estar sempre brava ria quando Angelys tirava um chocolate da forma e comia.

Depois, já em Montenegro, conseguiu trabalho numa sorveteria. Foi ali que descobriu o açaí.

Quando perguntei sobre a experiência, ela resumiu:

“Foi bom, porque daí eu comia todo dia.”

Uma avaliação profissional com a qual consigo me identificar.

Acordar às três. Trabalhar até quase meia-noite.

Ela estudou pela EJA para concluir o ensino médio, trabalhou em restaurante e também passou por um frigorífico de frangos.

Até hoje, ela não gosta de frango por causa dessa experiência.

Eu, quando era mais jovem, só comia frango porque era mais fácil de cortar. 😂

Houve um período em que ela acordava por volta das três da manhã para pegar o ônibus do frigorífico. Trabalhava até a tarde, voltava e, à noite, seguia para o restaurante. Podia sair às onze, à meia-noite ou mais tarde.

Às três, começava outra vez.

Ela calcula que manteve essa rotina por uns cinco meses. Quando perguntei o que a fazia continuar, respondeu:

“Eu não queria voltar pra Venezuela. Então eu tinha que tentar fazer dar certo.”

Eu tento encaixar o descanso nessa conta. Entre sair do restaurante, voltar para casa e acordar às três, quase não sobrava espaço para dormir.

E, quando fala do dinheiro, ela lembra:

“Só pagar conta, só pagar conta…”

É duro ouvir isso de alguém que você ama. Admiro a força dela, mas gostaria que não tivesse precisado de tanta.

Ainda assim, no meio daquela rotina, continuava procurando uma oportunidade melhor.

Vender apartamentos num idioma que ainda estava aprendendo

A oportunidade apareceu num anúncio de vendas no Facebook. Ela tentou uma entrevista, mas morar longe parecia ser um obstáculo. Não recebeu retorno.

Então procurou a imobiliária no Instagram, acompanhou pessoas que trabalhavam lá e encontrou outra divulgação de vaga. Tentou novamente.

Conseguiu uma entrevista presencial. Usou dinheiro guardado para pegar um ônibus até Porto Alegre e depois um Uber até a empresa.

O dono da imobiliária ajudou com o transporte e a procurar um lugar para morar mais perto. Ela saiu da entrevista com uma oportunidade, mas sem muita certeza de que conseguiria fazer aquele trabalho.

“Eu mal sabia falar português.”

Pense no que isso significava: ligar para desconhecidos, entender dúvidas, explicar uma negociação e conquistar a confiança de alguém que estava pensando em comprar um apartamento.

Eu trabalho com isso. Sei como pode ser difícil fazer essas ligações mesmo falando português. Já vi gente extrovertida que mal conseguia pegar o celular para ligar.

No meu começo, o problema era a vergonha e nunca ter trabalhado com vendas. A necessidade faz a pessoa. No meu caso, fez pegar o telefone.

A Angelys ainda precisava encontrar as palavras em outro idioma.

E a venda não veio logo.

Foram cerca de seis meses sem vender. No começo, ainda morava em Montenegro e ia até a imobiliária para fazer as ligações. Pegava ônibus e trem, na ida e na volta.

Precisava sair por volta das três ou quatro da tarde para chegar a tempo do trabalho no restaurante. Às vezes, pegava um Uber para conseguir ficar mais tempo ligando para os clientes.

Eu penso nisso: ela gastava com a corrida para ganhar um pouco mais de tempo tentando uma venda que ainda não sabia quando viria.

Manteve os dois empregos até conseguir um apartamento em Gravataí. O dono da imobiliária pagou o aluguel dela até sair a venda. E depois nem descontou o valor.

Não lembro quantos meses foram. Essa ajuda permitiu que ela deixasse o segundo emprego e se dedicasse à imobiliária antes de conseguir uma comissão. Ela lembra com gratidão de quem fez isso por ela.

Ainda assim, a espera pesava. Chegou perto de desistir.

“Eu chorei”

Ela lembra de uma venda para um advogado, concluída com a ajuda de um colega. Recebeu aproximadamente R$ 6 mil de comissão.

Era mais dinheiro do que já tinha ganhado de uma vez.

Perguntei como reagiu.

“Eu chorei.”

Por quê?

“Porque eu tava quase desistindo.”

Nessa fase, a gente praticamente já morava junto. Acompanhei as vendas começarem a aparecer e participei de clientes e fechamentos. O primeiro ano teve poucas vendas, mas ela já conseguia se manter.

Com o tempo, as vendas ficaram mais frequentes. Ela buscava clientes, fazia os contatos e trabalhava as oportunidades.

Em 2025, foi campeã do ano, com quase R$ 13 milhões em apartamentos vendidos.

Naquele ano, eu, o diretor dela e o dono da empresa ajudamos nas vendas. Esse apoio fazia parte da rotina da imobiliária: todos os corretores recebiam ajuda. Ela trabalhou muito e conquistou o primeiro lugar.

A competição precisava de uma campeã. Deu Angelys.

E ela faz questão de lembrar de quem participou do caminho até ali.

Quando perguntei por que queria tanto aquela conquista, respondeu que queria calar a boca de muitos, ganhar a premiação e deixar a avó orgulhosa.

E sentir orgulho de si mesma.

Gosto da sinceridade dessa resposta. Tem vontade de conquistar, de ser reconhecida e de mostrar para quem duvidou. Mas também tem a avó, cujo orgulho ela queria tanto.

A pessoa ao meu lado já tinha percorrido um caminho enorme

Eu conheci uma colega de trabalho. Aos poucos, fui conhecendo a menina que caminhava até a escola, a jovem que embarcou sozinha e a mulher que continuou tentando durante meses sem vender.

Nada disso vinha escrito quando ela entrou na imobiliária.

É algo que me faz pensar em quantas pessoas conhecemos apenas pelo trabalho que fazem hoje, pelo sotaque ou por uma conversa rápida. Há muita história que a gente ainda não perguntou.

A Angelys é forte, corajosa, inteligente e tem zero paciência em alguns momentos. Às vezes, a memória também resolve tirar uma folga.

E tem um excelente gosto. Está comigo.

Morando juntos, também fomos construindo a nossa história. Passamos por muita coisa, inclusive pela enchente de 2024 no Rio Grande do Sul. Tudo parou. Era uma situação que eu não imaginava viver, e atravessamos aquilo juntos.

Problema não aproxima todo casal. Tem gente que se separa. A gente foi ficando mais unido. Eu comecei dando carona e, quando vi, já estava dividindo uma vida inteira com ela.

Eu admiro a mulher com quem divido a vida. Quero conhecer lugares com ela, ver sua reação ao chegar, estar junto nas próximas histórias.

Mas, antes de pensar em tudo o que ainda vamos viver, gosto de lembrar o que ela já viveu para chegar até aqui.

Eu dava carona porque ela morava no caminho de casa.

Ainda não fazia ideia do caminho que ela já tinha percorrido.